REV. FRED MORRIS


morris.jpg (14554 bytes)Fred Morris é pastor metodista, atuou no Recife na década de setenta. Coordenou a Equipe Fraterna, comissão ecumênica com a qual Dom Helder trabalhou muito ativamente. Atualmente Fred Morris é secretário do Conselho Ecumênico de Igrejas da Flórida, nos Estados Unidos.

Em 1974, foi preso pelos militares, torturado barbaramente durante dias, no Quartel de Socorro no Recife e depois expulso sumariamente do Brasil. O seu crime era ser amigo de Dom Helder e trabalhar com os pobres.

 


ENTREVISTA EXCLUSIVA

DEZEMBRO - 1999

 


IGREJA NOVA - EM PRIMEIRO LUGAR É UMA HONRA O SENHOR NOS CONCEDER ESTAS PALAVRAS. PODERIA NOS FALAR SOBRE O SEU RELACIONAMENTO COM DOM HELDER?

REV. FRED MORRIS - Eu fui enviado ao Recife em setembro de 1970 pela Igreja Metodista do Brasil como missionário, com duas tarefas:

[1] Organizar e desenvolver um Centro Comunitário no bairro de Caixa D'Água, onde a Igreja Metodista já tinha uma igrejinha.

[2] Colaborar com Dom Helder em qualquer maneira, especialmente no que tocava de melhorar relações entre as Igrejas Evangélicas e a Igreja Católica Romana. Com o espírito aberto do Dom Helder sabíamos que não houve lugar  melhor para começar a sarar as feridas criadas nas historias de conflitos entre as igrejas do que Recife e Olinda.

Ao chegar no Recife, fui falar com o Dom. Fui muito bem recebido e ele me  indicou o Mosteiro de São Bento como ponto de contato para as relações ecumênicas que eu queria estabelecer. Entrei em contato com Dom Basílio, que me apresentou a vários irmãos do Mosteiro, entre eles nosso amigo Marcelo Barros.

Dentro de poucas semanas, formamos o grupo chamado a Equipe Fraterna,  composto de três pastores metodistas, dois padres Anglicanos, um pastor/estudante Presbiteriano, dois Luteranos, um Batista, três Beneditinos, dois Franciscanos, um Jesuíta e 4-5 freiras, e os irmãos de Taizé , que estavam em Olinda.

Nós nos reuníamos a cada terça-feira, às 10h até às 12 horas, para um estudo Bíblico, uma reflexão sobre o trabalho de cada um (em série, claro) e, depois de dois ou três meses, para a Eucaristia. Esta parte foi a mais linda, pois uma semana um padre católico celebrava a Missa Católica, e todos comungávamos.

Na outra semana, eu celebrava a Comunhão Metodista, e todos comungavam. Depois o Luterano, Episcopal, Presbiteriano, etc. Uma comunhão completa.

Foi precioso e magnífico.

Depois, a Equipe Fraterna participou das primeiras Comunidades de Base na área, oferecendo orientação para os estudos Bíblicos nas casas dos irmãos e irmãs da paróquia de Ouro Preto, sob a orientação do Padre (Beneditino) Inácio.

A parte mais importante do nosso trabalho foi o fato da Equipe existir como símbolo da unidade da Igreja, no meio das diferenças históricas das diversas igrejas.

I.N. - E QUAL ERA O TRABALHO QUE O SENHOR FAZIA, AO LADO DE DOM HELDER?

F.M. - Eu servi de intérprete para um sem-número de pessoas estrangeiras que chegaram ao Recife para conhecer DH. Várias vezes, ele me pediu para ajudá-lo  na preparação de conferências que ele daria em inglês ou na Europa ou nos EUA.

Além disto, eu fui à Missa que ele celebrava todas as manhãs na Igreja das Fronteiras, praticamente mensalmente e depois ele me convidava para tomar café com ele e aí ,discutíamos vários assuntos, de acordo com os eventos. Eu não tive um trabalho específico que fazia com ele: eu estava às ordens.

Uma outra coisa que eu fazia: era o jornalista "biscateiro" da revista Time e a Associated Press para o Nordeste. Aceitei o convite para fazer este trabalho para poder dar notícias à imprensa internacional, em caso de algum atentado contra Dom Helder.

I.N. - TRABALHAR COM OS POBRES E SER AMIGO DE DOM HELDER, NÃO ERAM BOAS REFERÊNCIAS, DURANTE O PERÍODO DA DITADURA MILITAR. COMO O SENHOR ENFRENTOU AS BÁRBARAS TORTURAS E A EXPULSÃO SUMÁRIA DO PAÍS?

F.M - Bem, é claro que minhas relações com Dom Helder e com a imprensa internacional não passavam despercebidas pelas forças de segurança da época. Em junho de 1974 a Time, publicou um artigo sobre Dom Helder chamado "O Pastor dos Pobres" que elogiava muito Dom Helder e criticava as barbaridades da ditadura. Em conseqüência disto, em julho, fui chamado a depor a dois coronéis do IV Exército no seu quartel no Recife. Fui ameaçado a não continuar relações com "más companhias" e com a imprensa internacional. Por meio de Marcelo, avisei Dom Helder que estava na mira, e renunciei minha relação com a revista Time. Não importava. No dia 30 de setembro, fui seqüestrado da minha casa no Espinheiro, pelo IV Exército, junto com meu amigo, Alanir Cardoso. Fomos levados ao Quartel Geral, onde fomos submetidos a golpes e choques elétricos por quatro dias e noites, quase sem parar. No dia 3 de outubro, devido ao barulho internacional criado pelo seqüestro dum missionário Metodista norteamericano, fui levado a um encontro com o Cônsul dos EUA, Sr. Richard Brown, sob as exigências do Tratado de Viena.

Todavia, passei mais 14 dias na prisão solitária, com muita tortura psicológica, mas nada mais física. No dia 16 de outubro fui levado ao Rio aonde passei o dia na Policia Federal, numa cela, e naquela noite, fui levado ao aeroporto do Galeão e colocado num vôo da Varig para Nova Iorque, com uma carta assinada pelo Presidente General Ernesto Geisel, me declarando "uma pessoa nociva aos interesses nacionais" e, por isto, "expulso" e, proibido de retornar ao Brasil, sob pena de quatro anos no cárcere.

Vocês perguntaram como eu enfrentei estas experiências: Bem, a gente agüenta.

Sei que minha fé em Deus foi crucial para mim. Não esperei sair vivo quando eles começaram a tortura, pois não vi vantagem para eles em me soltar para eu contar o que fizeram. Mas descobri que o dom da fé é suficiente para permitir que a gente enfrente até a morte, não pela coragem da gente, pois isto não existe num momento desses. É realmente um dom de fé em Deus.

A parte mais difícil foi a expulsão, pois eu tinha decidido, muito antes de passar o resto da minha vida no Brasil, que cheguei a amar tanto. Foi muito traumatizante ser expulso, sem nenhuma esperança de poder voltar. De fato, não tive permissão de voltar até agosto de 1988, quando, graças ao Padre Marcelo Barros, meus documentos chegaram aos olhos do Presidente interino Ulysses Guimaraes, que revogou o decreto de expulsão do general Geisel. Creio que eu fui "o último a voltar" de todos que foram exilados ou expulsos.

Minha expulsão foi, de fato, totalmente ilegal. Meu filho maior é brasileiro, nascido em Teresópolis em 1966, e a Constituição vigente em 1974 proibia a expulsão do estrangeiro que tinha filho brasileiro "dependente da economia paterna", que foi o caso. Também a Constituição me garantia o direito de defesa, ante qualquer acusação que poderia levar à expulsão. Nada disto foi me concedido. Eu perdi meus bens, meus amigos, minha profissão e trabalho, tudo. E até hoje nem me pediram desculpas.

I.N- APESAR DE UM PERÍODO SOMBRIO POLITICAMENTE, NO PERÍODO DA DITADURA A JUVENTUDE TINHA BRILHO E FORÇA. E TINHA UM PROPÓSITO: "MUDAR O MUNDO". O QUE DIZER AOS JOVENS DE AGORA ?

F.M. - O que foi bonito, em uma parcela da juventude da época da ditadura, era seu compromisso com o povo. Meu amigo Alanir, por exemplo, estava disposto a morrer antes de trair o povo. E muitos realmente morreram por seus ideais.

(Temos que reconhecer que a maioria de jovens e velhos preferiram ignorar o que estava passando nos quartéis, para aproveitar as melhorias de vida que o chamado "milagre brasileiro", de certo progresso econômico, trouxe.)

Hoje é, talvez, ainda mais difícil, pois as tentações são mais discretas.

Ninguém vai ser torturado hoje por seus ideais, muito menos morto. Mas com as promessas que a globalização oferece, muitos estão simplesmente se vendendo em troca destas promessas de bens materiais. Creio que é muito importante para os jovens de hoje entender que o sistema econômico que produziu a ditadura militar é o mesmo sistema que oferece a globalização.

Os donos são os mesmos. E o povo que sofreu tanto sob a ditadura, continua a sofrer hoje. Não é por acaso que os sem-terra são massacrados por tentar conseguir um pedaço de terra. E que os trabalhadores são ignorados, quando pedem salários dignos e outras proteções, que são seus direitos.

O importante é que a juventude de hoje busque estar em solidariedade com os povos e com a própria terra, que também está sendo massacrada pelo sistema econômico devastador.

I.N. - QUE BOAS RECORDAÇÕES TEM DE RECIFE?

F.M. - Adoro o Recife. Meus quatro anos no Recife são entre os mais felizes da minha vida. Adoro o clima, as praias, e, mais que nada, o povo.

I.N. - QUE MENSAGEM DE ESPERANÇA O SENHOR DEIXA PARA OS CRISTÃOS DE HOJE?

F.M. - A mensagem é sempre de esperança, pois Deus é o senhor até da história. A vitória final é garantida na ressurreição do Nosso Senhor. O Reino de Deus vem na sua plenitude. Não sabemos quando e nem como. Mas somos chamados a seguir os caminhos de Jesus para colaborar na sua busca para um mundo em que a Justiça de Deus é uma realidade para todos. É pouco provável que eu vá ver esta realidade. Mas, afinal, não somos chamados para ter êxito, mas, sim, para ser obedientes a Nosso Senhor.

Amém e Amém.